domingo, 10 de outubro de 2010

Caí no esquecimento de mim
e fiquei brincando de amar.
Beijo a sua face com esmero,
não é natural visto que não é real.
Porém, desejar pode ser conseguir.
Enquanto o ato escreve a história
eu acredito no futuro esquecido:
hei de ser feliz contigo.


Natasha Barbosa

quarta-feira, 24 de março de 2010


Imagem: é o Zach Condon. mas não tem relação direta com o texto, apenas me faz pensar em adoção...



Querido Samuel,

Mais do que sangue do meu sangue, você é a personificação da humanidade que eu não possuo. Meu filho, sou mais sua vilã do que heroína, sou mulher antes e acima de tudo. Desde nova desejei a maternidade, sonhava com um bebê lindo, um ser que seria alegre e triste sem medo algum, alguém a ser rendido pelas amarras do amor.

Não, amar não é libertar, fazer o bem e menos ainda desejar a felicidade alheia. Se quero você bem é porque sua tranqüilidade me permitirá ser em sua alma, poderei estar bem ao repousar na sombra da sua frutífera alegria. Compartilhar? O verbo certo talvez seja roubar ou apropriar, mais o último já que sempre consentimos alegando a tal cumplicidade na relação a dois. Não se iluda com generosidades superficiais: nenhuma mulher permitirá a sua alegria com ela e com outras ao mesmo tempo, e olha que a sua alegria seria bem grande e completa. Em alguns casos ela consideraria lhe desejar algo bom após o término do relacionamento, mas apenas com o intuito de tranqüilizar a consciência - dela - e ser liberta das obrigações inerentes a posse. Meu bem, é o olho do dono que engorda o amor.

Contudo, meu filho, não é que eu não te ame.

Mas ás vezes é preciso insurgir e você precisa conhecer a dúvida. Imagina como me é difícil passar todos os momentos do meu dia pensando na qualidade da existência de alguém que não sou eu? Seu amor me dominou de tal forma que apenas reconheço a minha subjugação: apenas sou a mãe e nada posso mudar a respeito. Só de refletir nossa ligação meu corpo tem febre e minha mente bloqueia a concentração, devaneios me anulam.

Até que num dia cotidiano como todos os outros milhares que vivemos e os quais continuaremos vivendo, você sentiu fome. Apertou minha mão, sustentou o olhar e exigiu o alimento. Ali o mundo se abriu e transbordou em luz, disfarcei a sabedoria e respirei pausadamente para controlar o acelerado coração. Eu tenho a chance, é possível! Se não consigo fugir do afeto devoto que sinto, posso fazer algo muito maior: tenho agora a permissão para senti-lo! Em todos os momentos continuarei te amando, cuidando e virando a mesa com cuidado. Você usará a corrente amorosa que me prende, será a tua anuência aos meus cuidados e afetos que me fará vencer e ser.


-Filhinho, você quer umas bolachas junto com o seu leitinho?

segunda-feira, 22 de março de 2010


Pequeno Gabo - ou algum irmão seu.


Meu Deus é uma criança

De tantas coisas que tenho visto e das milhares que não vi, aquele movimento do cílios transmitiu a beleza divina. Penso na maldade das pessoas e em como matar não é suficiente: é necessário torturar, beber o sangue e queimar a carne. Não basta agredir uma jovem, é necessário estuprá-la e destruir sua alma. Diante deste grão de areia, como acreditar que um Deus rege o nosso deserto?

A criança tem uma alegria simples e exuberante que resplandece só de imaginar uma brincadeira, de ganhar um abraço ou fazer um carinho. Seus sorrisos iluminam e cegam o Sol; sua pequenez reflete a sua grandiosidade futura em conjunto com a imensidão presente. A minha criança é sábia, é generosa no amor, é bela de se olhar. Ela não se machuca com minhas traições, ela remedia meus enganos e perdoa minhas fraquezas. Sem ela minha respiração é insuficiente. Com ela a minha fome é maior e o sublime é acessível.

Esta crença não possui um templo ou um livro fundamental, não tem séculos de história ou respaldo racional. Sou apenas um devoto de seus risos. Os nossos milagres são tão abundantes que chegam a serem pouco valorizados: respirar, dormir e sonhar. Quando a vejo deitada com o tórax subindo e descendo, o semblante em paz e os cachos desalinhados, sei que estou diante de Deus e da beleza suprema do amor. Deveria ser impossível visualizar tamanha verdade, porque toda vez que a dádiva me é concedida, eu perco minha individualidade e a tenho adulterada. Sem ele eu não sou, mas com ele sou muito mais do que suporto.



Eu te amo.

Mas isso não é tão simples o quanto parece. todos os dias sofro pequenas mudanças que alteram o meu todo. Não é só o cabelo que cresce ou a pele que se renova. Minhas ideias absorvem novas cores, os sentimentos delimitam paisagens e meus olhos não se contentam com a luz diária.

Quero mais, preciso alcançar e sugar o meu maior. E no meio de tanto querer, desejo te presentear com o meu melhor. Falei que não era simples.

Sou um pouco -quase nada- indecisa, muito inquieta e um pouco reflexiva; bem além do limite saudável. Contudo, possuo fé nas minhas poucas certezas, pois são mais do que convenções ou marcas de carater. Elas me são. Eu as sou. Pernas e braços perdem a relevância diante do amor que me inunda:
- amo minha mãe
- a minha família
- alguns poucos amigos
- amo a doce lembrança do Gabito e várias páginas encardenadas.

Enfim, te amo desde os meus 15 anos.

domingo, 21 de março de 2010


Arte: Bonjour tristesse, de Martin Eder.



Querida Letícia,

Escrevo por tudo que desejei vivermos e que jamais acontecerá. Bem, não com a sua presença e consentimento, mas a sua imagem em meus sonhos já é uma realização válida. Vejo você andando com suas amigas, movimentando os braços ao falar e fingindo -muito mal- que não me viu passar e te olhar. Menina, eu te vejo em tudo e é tão absurdo o desejo, que também a vejo no nada.

Não imaginei que seria assim, tomado de desejo tão forte justo quando a minha vida é feliz, com minha bela e inteligente esposa e com os meus ricos filhos num lar agradável. Sei que você não quis macular esta realidade, o seu objetivo era apenas um sentimento novo, uma paixão discreta com sensações implícitas. Porém, não são os amores perdidos e depois achados os mais felizes? Imagino seu riso comigo, seus olhos, o seu receio pela minha proximidade e até a sua face envergonhada; como ser tão presente? Como posso pedir a sua atenção, como posso tentar competir, em devaneios, com o seu jovem parceiro e ainda assim vencer no seu afeto? Estou perdido em você.

O tempo passa e tu provavelmente não pensas em mim, não passa pela sua cabeça que estou aqui te escrevendo, que olho em outros olhos buscando os seus. Você está aí, desconhecendo o meu martírio enquanto também estás aí, estimulando minha ilusão. Será que vamos ser possíveis? E se formos: amaremos? Queria tanto viver a nossa ligação, saber que alguns sorrisos serão meus e que mesmo com a minha mulher e com o teu rapaz, nós seremos só um do outro. Vamos pintar juntos, visitar lugares feios que ficarão bonitos aos seus olhos e sentir a maior tristeza do mundo ao dizer tchau.

Amanhã nós vamos nos encontrar. Para você será algo casual, ou pelo menos sua expressão me transmitirá isso. Já comigo os animais serão cruéis: minha barriga será devorada e meu coração derreterá ao passo que meu corpo será congelado.

Por favor, me iluda e faça da minha esperança um bem menor.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Possuía tanto amor que começou a distribuí-lo:deus aos pássaros, aos objetos e aos homens; principalmente aos homens. Recém-casados , o jovem companheiro não sabia como agir, esbravejava, implorou, abandonava a residência e até lhe bateu. Dedos estrelados na face pálida, a dor pela ilusão do pronome possessivo.
Apesar do escândalo, continuaram juntos por anos,ela generosa distribuindo e ele se apoiando na felicidade conjugal. Afinal,a esposa o amara primeiro e mais do que aos outros. Era preciso compartilhar quando havia em tão grande quantidade, uma fonte tão inesgotável que até podia fazer mal. E se a coitadinha morresse? Como um defensor de sua fé e reforçado por tais argumentos, o homem tomou para si os cuidados do lar. Continuar bela era necessário e o seu orgulho aliado ao amor dominava sua mente em todas as despedidas. Era tão bela em seu amor generoso, que felicidade a do sortudo marido!
O que ambos não perceberam foi o vento da mudança que lhes cercava. A mulher manteve a cabeça dispersa e os membros em núpcias, já ele passou da adaptação para a compreensão. Vislumbrou a culpa, sua. Se não possuísse o mesmo aspecto sempre, ela lhe daria além do direito, os excessos.
Assim, certo dia ele mudou a face, no outro a estrutura e depois até a espécie para ganhar tais carinhos. Mal negócio? Que nada, há tanto amor que as mudanças perduram até hoje.

O que três xícaras de café não fazem! meu primeiro "conto" completo, alegria quase infantil! rsrsrsrs