domingo, 21 de março de 2010


Arte: Bonjour tristesse, de Martin Eder.



Querida Letícia,

Escrevo por tudo que desejei vivermos e que jamais acontecerá. Bem, não com a sua presença e consentimento, mas a sua imagem em meus sonhos já é uma realização válida. Vejo você andando com suas amigas, movimentando os braços ao falar e fingindo -muito mal- que não me viu passar e te olhar. Menina, eu te vejo em tudo e é tão absurdo o desejo, que também a vejo no nada.

Não imaginei que seria assim, tomado de desejo tão forte justo quando a minha vida é feliz, com minha bela e inteligente esposa e com os meus ricos filhos num lar agradável. Sei que você não quis macular esta realidade, o seu objetivo era apenas um sentimento novo, uma paixão discreta com sensações implícitas. Porém, não são os amores perdidos e depois achados os mais felizes? Imagino seu riso comigo, seus olhos, o seu receio pela minha proximidade e até a sua face envergonhada; como ser tão presente? Como posso pedir a sua atenção, como posso tentar competir, em devaneios, com o seu jovem parceiro e ainda assim vencer no seu afeto? Estou perdido em você.

O tempo passa e tu provavelmente não pensas em mim, não passa pela sua cabeça que estou aqui te escrevendo, que olho em outros olhos buscando os seus. Você está aí, desconhecendo o meu martírio enquanto também estás aí, estimulando minha ilusão. Será que vamos ser possíveis? E se formos: amaremos? Queria tanto viver a nossa ligação, saber que alguns sorrisos serão meus e que mesmo com a minha mulher e com o teu rapaz, nós seremos só um do outro. Vamos pintar juntos, visitar lugares feios que ficarão bonitos aos seus olhos e sentir a maior tristeza do mundo ao dizer tchau.

Amanhã nós vamos nos encontrar. Para você será algo casual, ou pelo menos sua expressão me transmitirá isso. Já comigo os animais serão cruéis: minha barriga será devorada e meu coração derreterá ao passo que meu corpo será congelado.

Por favor, me iluda e faça da minha esperança um bem menor.

Nenhum comentário:

Postar um comentário